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As emoções de guiar um Asa de Gaivota e outras gerações dos Mercedes SL

Cheiros, vibrações e sensações em uma tarde mágica no sul da Espanha

Mercedes-Benz SL W198 cupê 1954-1957 (Fotos de Jason Vogel)  (1)
Foto de: Jason Vogel

Uma das tardes mais inesquecíveis da minha vida aconteceu em 2012, no sul da Espanha, durante o lançamento mundial da sexta geração dos Mercedes-Benz SL. Aproveitando que essa linhagem de esportivos completava 60 anos, o Classic Center da marca convidou um grupo de jornalistas a dirigir as gerações anteriores do SL por estradinhas sinuosas nas montanhas da Andaluzia. Davam a chave em nossas mãos, um mapa e a recomendação de devolvermos os carros inteiros. Simples assim… Foram horas e horas de sorriso no rosto, numa tarde rica em cheiros, vibrações e sensações.

Para começar, contemos o início dessa história: estrela dos GPs nos anos 1930, a Mercedes cessou suas atividades esportivas por causa da Segunda Guerra. Somente em 1951 a marca pôde voltar às corridas e, para a reestreia, decidiu criar um carro tipo “turismo”. Seria o primeiro passo antes da Fórmula 1.

O bólido ficou pronto para a temporada de 1952, obra do grupo liderado por Rudolf Uhlenhaut, gênio que serviu à Mercedes por cinco décadas. Batizado de 300 SL, o modelo (W 194, no código interno) reunia soluções então inéditas, como a estrutura tubular. Era um chassi que pesava só 50 quilos, formado por seções triangulares. Com a gaiola metálica, não havia espaço para entrar no cupê — e o jeito foi tomar o teto, fazendo com que duas portinholas se abrissem para cima.

Mercedes-Benz SL Br.194 _1952–53 (Fotos de Jason Vogel) b

Mercedes-Benz SL Br.194 _1952–53 (Fotos de Jason Vogel)

Foto de: Jason Vogel

O motor de seis cilindros e 3,0 litros foi emprestado dos grandes Mercedes-Benz 300, os automóveis oficiais do governo alemão. Com preparo, chegava a 175 cv — potência que dava e sobrava para levar um carro de 1.130 quilos. Não à toa, a sigla SL vinha de Super Leicht (“superleve”, em alemão). Sim, é isso mesmo — e não Sport Leicht, como a maioria imagina.

Foi preciso inclinar o motor para que coubesse sob o capô baixinho. A altura total do carro de corridas não passava de 1,22 m. Falando em aerodinâmica, o Cx era de 0,25 — marca excelente até os dias de hoje. Imagine há 73 anos! As linhas eram muito mais lisas, limpas e arredondadas que as do 300 SL de rua (que seria lançado um pouco mais tarde). A grade oval com frisos verticais inspirou a dos atuais Mercedes-AMG.

W 194 “Nummer zwei” (1951–1952)

Apenas dez unidades do W 194 foram construídas para a temporada de 1952. O primeiro exemplar não existe mais — infelizmente, foi sucateado. Mas o segundo carro a ser construído, com o chassi número 194 010 00002/52, continua sendo propriedade da Mercedes desde que ficou pronto em suas oficinas de competição, em novembro de 1951.

O mais antigo SL existente jamais disputou uma corrida. Hoje mais conhecido como Nummer zwei (“número dois”, em alemão), o exemplar serviu ao desenvolvimento de componentes, aos treinos de pilotos e como doador de peças. Esse carro foi cuidadosamente restaurado para marcar o aniversário de 60 anos do modelo, em 2012. Pudemos dar uma voltinha nele — no banco do carona, dado seu valor inestimável (já foi avaliado em US$ 15 milhões).

Entrar não é tarefa simples: nos W 194 chassis 001, 002 e 003, o acesso se faz pelas portinholas que se abrem para cima, levando junto parte do teto — o vão de passagem chega apenas até a linha de cintura do carro. E, claro, não queríamos arranhar a pintura prateada com a sola dos sapatos (a Mercedes, precavida, oferece tapetinhos de borracha especialmente para entrar e sair do carro…). As aberturas só foram ampliadas para as 24 Horas de Le Mans de 1952, transformando-se nas icônicas “asas de gaivota” eternizadas pela história.

Mercedes-Benz SL W198 II Roadster 1957–1963 (Fotos de Jason Vogel)  (2)

Mercedes-Benz SL W198 II Roadster 1957–1963 (Fotos de Jason Vogel)

Foto de: Jason Vogel

Uma vez lá dentro, há conforto. Os bem esculturados bancos tipo concha são cobertos de tecido de lã com motivo xadrez (tartan), enquanto o volante de quatro raios pode ser retirado para facilitar a entrada e a saída do piloto. O velocímetro e o contagiros estão posicionados com perfeição no centro do campo de visão, com os instrumentos menores (para temperatura da água, pressão do combustível, temperatura e pressão do óleo, além do cronômetro original do carro) logo abaixo.

Mas não pense que o Nummer zwei é tratado com muita cerimônia. Apesar da idade, o carro foi totalmente desmontado e reconstruído ao estado de zero quilômetro. Nas demonstrações de que participamos, o piloto do Classic Center o acelerava sem pena numa reta de estrada rural, chegando perto dos 200 km/h. O som do ar sendo sugado pelo trio de carburadores Solex de corpo duplo se combinava ao ruído metálico da transmissão — um breve momento que tomou a dimensão da eternidade.

O W 194 brilhou sua estrela de três pontas nas provas de resistência da temporada de 1952. Sua maior glória foi ter ficado com o primeiro e o segundo lugares nas 24 Horas de Le Mans daquele ano, com média de 155 km/h — um recorde!

Na Carrera Panamericana de 1952, no México, os W 194 também conquistaram primeiro e segundo lugares, enfrentando enormes Lincoln Capri, Chrysler New Yorker e Hudson Hornet, além de esportivos europeus (Ferrari 340, Lancia Aurelia B20 GT, Porsche 356 Super etc.).

Com o avassalador sucesso nas corridas, o 300 SL parecia ter cumprido sua missão. Em 1954, porém, o carro de competição ganhou novo uso: o importador Max Hoffman propôs que a Mercedes fizesse uma versão de rua para os EUA e encomendou mil unidades do 300 SL. 

Mercedes-Benz SL W198 cupê 1954-1957 (Fotos de Jason Vogel)  (6)

Mercedes-Benz SL W198 cupê 1954-1957 (Fotos de Jason Vogel)

Foto de: Jason Vogel

W 198 cupê (1954–1957)

É o primeiro 300 SL de rua. Cuidado para não bater a cabeça na porta. O volante bascula para a frente, permitindo que até um motorista barrigudo entre na cabine. Uma vez instalado, fica-se numa ótima posição de condução.

Com as portas fechadas, o ambiente é claustrofóbico, já que os vidros laterais não abrem (só os quebra-ventos). Após duas tentativas, o motor de 215 cv acorda com seu som metálico e nervoso. O cheiro da mistura rica e da gasolina boa enebria.

Na estrada, é só chamar forte no acelerador a 2.000 rpm para ele crescer com incrível facilidade até 5.000 rpm. É muito motor para um carro com suspensão traseira por eixos oscilantes. Alcançamos 150 km/h num instante — e ficamos imaginando o que era isso em 1954…

Chega-se muito rápido à curva; o acionamento do freio é pesado e não se pode entrar tão quente. O volante, em posição bem vertical, com direção direta, facilita os necessários contraesterços. Achei que ia apanhar do câmbio, mas a sincronização é perfeita e o acionamento, leve (a ré é a exceção). São apenas quatro marchas.

Mercedes-Benz SL W198 cupê 1954-1957 (Fotos de Jason Vogel)  (5)

Mercedes-Benz SL W198 cupê 1954-1957 (Fotos de Jason Vogel)

Foto de: Jason Vogel

A bomba injetora mecânica alimenta as seis bocas do motor sem engasgos ou falhas. A injeção direta não dá buracos. Puro pioneirismo — uma revolução!

Estradinha travada, serpenteando as montanhas, som metálico do motor e da transmissão reverberando, direção levinha... Lá pelas tantas, lembro que um 300 SL vale cerca de 1,5 milhão de euros (na Europa). A responsabilidade pesa.

Guiar o 300 SL com sua suspensão traseira por eixos oscilantes é um grande exercício físico e mental. No fim, por ato falho, fiquei perdido e ainda rodei uns 10 km a mais que os 20 km previstos inicialmente. Sonho realizado!

W 198 II Roadster (1957–1963)

Depois do “Asa de Gaivota”, veio o 300 SL em versão conversível. A mecânica é basicamente a mesma, mas se trata de um carro muito mais fácil e civilizado de dirigir. Sem capota, não há ruído alto ecoando no interior. A transmissão não geme tanto e a suspensão é mais controlada. É o mesmo carro, só que mais civilizado.

Mercedes-Benz SL W113 Pagoda 1963–1971 (Fotos de Jason Vogel)

Mercedes-Benz SL W113 Pagoda 1963–1971 (Fotos de Jason Vogel)

Foto de: Jason Vogel

W 113 “Pagoda” (1963–1971)

Passamos à geração W 113, na versão 280 SL. É um carro bem menor e mais dócil do que os anteriores, além de ser o primeiro Mercedes-Benz a trazer pneus radiais. Seu câmbio automático de quatro marchas dá uns tranquinhos, mas tudo o mais cativa: o som do motor, as sensações tácteis e visuais do volante de baquelite... Chega a 130 km/h com grande facilidade, mas tem relações muito curtas na transmissão: em quarta, a 100 km/h, o motor trabalha a 3.500 rpm.

O carro dispunha de um teto rígido desmontável cuja parte superior era côncava, lembrando o telhado dos templos asiáticos — daí o apelido Pagoda. Mas aqui vamos mesmo com a capota arriada, integrados à natureza do sul da Espanha, por estradinhas maravilhosas, sentindo cheiros e vento. O suave passeio com o 280 SL parece um sonho.

Se me fosse permitido trazer um SL para casa, o W 113 seria minha escolha.

Mercedes-Benz SL R107 1971–1989 (Fotos de Jason Vogel)

Mercedes-Benz SL R107 1971–1989 (Fotos de Jason Vogel)

Foto de: Jason Vogel

R 107 (1971–1989)

Era o conversível dos superchiques e playboys dos anos 1970, povoando a imaginação de um Brasil com importações escassas. Abaixar a capota requer certo trabalho. O estofamento xadrez e os instrumentos com ponteiros amarelos dão o tom da época. Suas lanternas caneladas foram copiadas até na VW Brasilia.

O R 107 é mais largo e tem mais suspensão do que o antecessor — é fácil de dirigir. Foi o primeiro SL a trazer motor V8 e injeção eletrônica (em vez da mecânica). É simples conviver com ele, ainda que não tenha a mesma elegância dos modelos mais antigos.

Mercedes-Benz SL R129 1989–2001  (Fotos de Jason Vogel)

Mercedes-Benz SL R129 1989–2001 (Fotos de Jason Vogel)

Foto de: Jason Vogel

R 129 (1989–2001)

Se originalmente a sigla SL vinha de Super Leicht (“superleve”, lembra?), a quarta geração do modelo inchou como um Elvis na fase Vegas. Foi o aburguesamento total: a versão 600 SL tinha um V12 furioso, enquanto a de seis cilindros (280 SL) nasceu para aposentados de Miami.

O R 129 foi o primeiro SL com capota elétrica, ABS e controle de estabilidade, além de suspensão hidropneumática.

R 231 (2012–2020)

Diante de tantos carros interessantes e do tempo limitado, preferimos pular a quinta geração (R 230, produzida entre 2001 e 2010) e passar logo para a R 231, que estava sendo lançada em 2012.

O extenso uso do alumínio em seu monobloco remete às raízes da marca, quando os Mercedes SL eram feitos para corridas. O material está em peças estampadas e fundidas de diferentes espessuras, garantindo rigidez estrutural. Com 1.780 kg — 130 kg a menos que a geração anterior — o 500 SL mantém-se ágil. Somente o quadro do para-brisa é feito em aço de alta resistência. Santantônios retráteis oferecem proteção em caso de capotamento, sem comprometer o design.

Mercedes-Benz SL R231 2012-2020 (Fotos de Jason Vogel)  (1)

Mercedes-Benz SL R231 2012-2020 (Fotos de Jason Vogel)

Foto de: Jason Vogel

As curvas do porta-malas, os vincos e as aberturas de ar remetem ao modelo dos anos 1950. O teto rígido retrátil traz um vidro especial que muda de transparente a azul-escuro com o simples apertar de um botão. Cada recurso transmite a sensação de modernidade, sem perder a essência clássica que define o conversível.

O V8 biturbo de 4,7 litros e 435 cv desperta em silêncio, conduzido com suavidade até que chegamos à estrada. Com 71 kgfm de torque, qualquer brecha na pista basta para que o motor cresça sem assobios ou hiatos de força, como se fosse um aspirado. Em sétima marcha, a 120 km/h, ele trabalha a 1.800 rpm, permitindo passeios tranquilos — enquanto o rugir do V8 só se revela quando solicitado.

Galeria: Mercedes SL - História automotiva

Mercedes-AMG R 232 (2022– )

Aqui, damos um salto no tempo para uma década depois daquele test drive inesquecível. A atual geração do SL é chamada de Mercedes-AMG R 232. Tem como base a plataforma do AMG GT de segunda geração e sai da linha de produção em Bremen, na antiga fábrica da Borgward.

O R 232 chegou ao público em 2022, trazendo de volta o teto em tecido e uma carroceria cerca de 270 kg mais leve que a do antecessor. Pela primeira vez, um SL de produção em série traz aerodinâmica ativa.

As versões mais simples têm motor quatro-em-linha 2.0 turbo, enquanto as intermediárias trazem um V8 4.0 biturbo. No topo da linha está o AMG SL 63 SE híbrido, com 816 cv (!) combinados — 612 cv do V8 e 204 cv do motor elétrico. O monstro acelera de 0 a 100 km/h em apenas 2,9 segundos e alcança os 317 km/h.

Vovô 300 SL ficaria orgulhoso.

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