Xsara Picasso: há 25 anos, nascia o primeiro Citroën fabricado no Brasil
Monovolume conseguia juntar originalidade no design e racionalidade no espaço interno
No dia 1º de fevereiro de 2001, a fábrica da PSA Peugeot Citroën inaugurou suas operações em Porto Real (RJ). Dois meses depois, em 24 de abril, o inovador Xsara Picasso era lançado oficialmente. O evento teve como base o hotel Copacabana Palace, de onde os jornalistas partiram para um test drive até a cidade serrana de Petrópolis. E lá se vão 25 anos da apresentação do primeiro Citroën nacional.
Essa história, contudo, começa alguns anos antes, do outro lado do Atlântico. Em meados dos anos 1990, o design da Citroën passava por uma fase de transição. Sob a direção de estilo de Arthur Blakeslee, a marca iniciou uma série de projetos mais ousados, sendo o principal deles o conceito Citroën Xanae, apresentado no Salão de Paris de 1994.
O protótipo buscava combinar arquitetura monovolume com altura contida, distribuição de massas equilibrada, para-brisa panorâmico e, principalmente, muito conforto para seu tamanho. O Xanae era um manifesto de arquitetura interna: cabine avançada, piso liberado, modularidade total e uma proposta clara de transformar o carro em uma extensão da casa.
O projeto teve múltiplos responsáveis: dirigido por Blakeslee, foi supervisionado por Luc Epron e executado por Mark Lloyd (exterior) e Marc Pinson (interior).
Houve ainda uma disputa judicial incomum. Antoine Volanis, um dos criadores do Renault Espace, alegou que o Xanae reproduzia um estudo seu apresentado anos antes à PSA Peugeot Citroën. A carroceria em formato de ovo e a arquitetura interna guardavam forte semelhança com o projeto Ibis, assinado por Volanis. A Justiça lhe deu ganho de causa, condenando a empresa ao pagamento de indenização e à publicação de um reconhecimento de autoria.
Na época, a Citroën tinha como única minivan a conservadora Evasion, fruto de uma cooperação entre Fiat e PSA. Mas o conceito Xanae estava destinado a ser algo bem diferente.
Conceito Citroën Xanae (1994)
De Xanae a Picasso
Inicialmente concebido sobre a base do médio Citroën Xantia, com suspensão hidropneumática, o projeto acabou recebendo sinal verde para produção em série — mas com uma solução mais simples: a plataforma do compacto Citroën ZX e de seu sucessor, o Xsara, com molas e amortecedores convencionais. O entre-eixos, originalmente de 2,54 m nesses dois modelos, foi alongado para 2,76 m.
Na prancheta do italiano Donato Coco, o Xanae foi transformado em um carro de produção. Era um monovolume puro, com silhueta contínua, para-brisa avançado e proporções quase simétricas entre dianteira e traseira. Rompia com os padrões estéticos do segmento e representava um passo além das wagons (ou breaks, como se diz na França) e das minivans tradicionais.
Conceito Citroën Xanae (1994)
A influência do Xanae aparecia em detalhes concretos. A ausência de console central no assoalho, ainda que adaptada, manteve o conceito de circulação livre entre os bancos dianteiros. A modularidade foi traduzida nos três bancos traseiros individuais, idênticos e removíveis. O painel horizontal, quase sem barreiras visuais, ampliava a percepção de espaço. E até soluções como o Modubox — um carrinho dobrável integrado ao porta-malas — nasciam diretamente dessa ideia de “carro como extensão da vida cotidiana”.
Seu nome — Picasso — também fazia parte dessa estratégia de diferenciação. O acordo com os herdeiros do pintor espanhol Pablo Picasso associava o modelo a conceitos de criatividade e ruptura estética, exatamente o posicionamento que a Citroën buscava.
Conceito Citroën Xanae (1994)
O contrato foi firmado diretamente com Claude Picasso, filho do pintor e administrador do espólio. Embora os valores exatos sejam guardados sob sigilo comercial, estima-se que a Citroën tenha pago cerca de 115 milhões de francos (US$ 20 milhões em valores da época) pelo direito de uso do nome por um período inicial de 20 anos. Além do nome, a Citroën obteve o direito de replicar a icônica assinatura de Picasso na carroceria dos veículos.
A aprovação não foi unânime entre os herdeiros. Marina Picasso, neta do artista, foi à Justiça francesa. Alegava que associar o nome de um dos maiores gênios da arte a um objeto de consumo em massa, como um carro, vulgarizava a memória e o legado de seu avô. Claude defendeu que o acordo ajudava a financiar a preservação da obra do pai e que o carro em si era um produto de design e engenharia compatível com o espírito inventivo do artista andaluz.
O Xsara Picasso inaugurou a fábrica de Porto Real
Adaptação para o brasil
Enquanto isso, o Brasil vivia um momento de atração de novas fábricas. Às tradicionais VW, GM, Ford e Fiat somaram-se linhas de produção fora do ABC paulista, como as da Renault (São José dos Pinhais, PR), Mercedes-Benz (Juiz de Fora, MG, com o Classe A), Honda (Sumaré, SP) e Toyota (Indaiatuba, SP). Ao mesmo tempo, as minivans tornavam-se uma grande tendência do mercado. A Citroën surfou nas duas ondas.
Em outubro de 2000, um exemplar pré-série do Xsara Picasso nacional foi exibido no Salão de SP. Estava claro que a Citroën havia criado algo mais do que um “simples rival” para o Renault Scénic, lançado no Brasil em março de 1999.
A ideia era entrar no país com um produto de alto valor percebido, capaz de construir imagem de marca. Quando passou a ser produzido no Brasil, o modelo ainda era recente na Europa.
Xsara Picasso
“A decisão de lançar o Xsara Picasso foi tomada em 1998, três anos antes da inauguração da fábrica. A gente queria trazer para o Brasil o carro mais atual possível, um produto moderno e eficiente, que tivesse sucesso em nosso mercado”, revela Sergio Habib, então importador da marca e posteriormente alçado a presidente da Citroën do Brasil, com a construção da unidade da PSA no Estado do Rio.
Começou então o trabalho de adaptação do modelo para fabricação local.
“A gente fez várias modificações. Reforçamos a suspensão, elevamos o carro por causa das lombadas e valetas, mas a maior mudança foi no ar-condicionado. Colocamos um segundo trocador de calor, instalado sob o banco do passageiro”, lembra Habib.
Havia saídas de ar para a parte traseira da cabine, evidenciando o nível de intervenção necessário para adaptar um projeto europeu ao clima brasileiro. Além disso, houve um trabalho extensivo em NVH (Noise, Vibration and Harshness) para reduzir ruídos estruturais.
“O brasileiro é muito sensível a pequenos ruídos. Fizemos vários testes em estradas ruins na Europa para melhorar isso”, conta o executivo.
No test drive de lançamento, os jornalistas (como este que vos escreve) perceberam de imediato uma das grandes qualidades do modelo: a excelente posição de dirigir, com volante bem vertical (para uma minivan) e a alavanca de câmbio no console suspenso, ali pertinho da mão direita, como em um carro de rali.
Citroen Xsara Picasso - painel digital
Um ponto incomum era o quadro de instrumentos inteiramente digital e posicionado no centro do tablier, o que facilitava a adaptação para os países com direção à direita. Tal solução já havia sido usada no Renault Twingo, mas o painel do Citroën era muito mais completo, com computador de bordo.
O que causava estranheza era o para-brisa muito avançado, criando um ponto cego ao dobrar esquinas. Entre as colunas “A” e a coluna das portas dianteiras havia um grande vidro triangular (como um quebra-vento fixo) que apenas atenuava o problema.
Bom de guiar
O comportamento dinâmico estava mais para um bom hatch ou sedã do que para uma minivan, como pudemos perceber no sinuoso trajeto da Rio–Petrópolis. Era tão agradável de guiar quanto o Xsara que lhe dera origem e, nesse ponto, superava os rivais Renault Scénic e Chevrolet Zafira (que também estreou em 2001).
Um dos maiores destaques era o chamado eixo traseiro autodirecional. Graças a buchas de fixação elásticas com deformação programada, as rodas traseiras acompanhavam levemente o ângulo das rodas dianteiras em curvas de alta velocidade. Isso aumentava a estabilidade e ajudava o carro a contornar curvas com mais agilidade, reduzindo a tendência ao subesterço.
O banco traseiro era dividido em três partes iguais
Enquanto na Europa a maioria dos Xsara Picasso tinha motor 2.0 a diesel (além de versões 1.6 e 1.8 a gasolina), no Brasil o modelo estreou com uma inédita configuração 2.0 16v de 118 cv e 19,8 kgfm — o motor EW10 J4, emprestado do Citroën C5, mas com menos potência máxima e ajustado para privilegiar o torque em baixas rotações.
À receita se somava um câmbio manual com as três primeiras marchas encurtadas — como gostava Habib. A ideia era privilegiar a sensação de força (ao superar quebra-molas sem necessidade de reduzir, por exemplo). A potência máxima podia não ser elevada, mas, na subida de serra, o motorista se sentia o maioral.
O desempenho, aliás, era muito bom para os padrões da época, com 0 a 100 km/h em 9s7 e máxima de 192 km/h. O consumo ficava em 8,7 km/l na cidade e 12,2 na estrada.
Apesar das dimensões externas compactas (apenas 4,17 m de comprimento), o entre-eixos de 2,76 m garantia excelente espaço interno. Os três bancos traseiros individuais tinham a mesma largura, sem aperto para quem ia no meio. Ao estilo dos aviões, os passageiros dispunham de mesinhas instaladas nos encostos dianteiros.
Havia ainda porta-objetos por toda parte, inclusive uma gaveta sob o banco do passageiro, um alçapão no assoalho da cabine e compartimentos com tampa nas laterais do porta-malas. Também não se economizou em forrações de veludo, superiores às oferecidas na Europa. No lançamento, havia duas versões: a de entrada, chamada GLX, já vinha com airbag duplo; a topo de linha Exclusive trazia ABS, rodas de liga leve, CD player e faróis de neblina.
Na época do lançamento, os preços do Xsara Picasso nacional (de R$ 37.200 a R$ 41.300) se equivaliam aos do Chevrolet Zafira e aos das versões mais equipadas do Renault Scénic. As concessionárias da Citroën, contudo, frequentemente praticavam valores acima da tabela — na prática, o modelo fabricado em Porto Real saía mais caro que os rivais. Ainda assim, as vendas eram muito boas.
“Era o único produto nacional que a gente tinha. O Xsara Picasso foi um sucesso imediato. Vendíamos mais de mil carros por mês, que era o objetivo, superando o Zafira”, afirma Habib.
A Citroën tinha 30 concessionárias, quase todas nas capitais, enquanto a Chevrolet contava com 480 pontos de venda.
Xsara Picasso série Étoile - dezembro de 2002
Mudanças
Ao longo dos anos, o modelo evoluiu. Em dezembro de 2002, por conta da eleição de Lula à Presidência da República, o Xsara Picasso ganhou a série especial Étoile (“estrela”, em francês, numa referência ao símbolo do PT). Foram 5 mil exemplares da versão GLX com bancos forrados com couro, rodas de liga leve, CD player e sensor de ré. Era “a socialização do conforto e da beleza”, segundo a propaganda.
Em 2003, o monovolume ganhou a opção do (problemático) câmbio automático AL4. Em 2004, passou a oferecer o motor 1.6 16v, ampliando o alcance comercial. Já o motor 2.0 foi atualizado para cerca de 138 cv (mesma potência da França), melhorando o desempenho sem alterar sua proposta familiar.
Em outubro de 2006, o motor 1.6 foi convertido em flex (110/113 cv), uma nova exigência do mercado nacional. Um facelift, em agosto de 2007, trouxe mudanças visuais discretas. Feito exclusivamente no Brasil e na China, o retoque na dianteira, com grade mais larga, alinhou o modelo à nova identidade global da marca.
Ao longo do tempo vieram séries especiais com bancos de couro e até tela de DVD no teto. A essência do projeto, contudo, permaneceu intacta — e essa era justamente sua força.
Citroen Xsara Picasso modelo 2008, com a nova grade
Os capítulos finais
Na Europa, o Xsara Picasso começou a ceder espaço ao C4 Picasso em 2006, até sair de linha definitivamente em 2010. No Brasil, continuou em produção até abril de 2012. A decisão fazia sentido: com o investimento já amortizado, o modelo oferecia uma relação custo-benefício difícil de igualar.
Esse posicionamento ficou ainda mais evidente a partir de 2011, quando a própria Citroën reorganizou sua linha. Com a chegada do Aircross e do C3 Picasso, o Xsara Picasso foi reposicionado como opção de entrada entre os carros familiares da marca. Já o C4 Picasso nunca foi fabricado aqui, apenas importado da fábrica de Vigo, na Espanha, a partir de 2008.
Citroen Xsara Picasso modelo 2008
Ao longo de 11 anos de produção nacional, aproximadamente 107.700 unidades do Xsara Picasso foram vendidas no Brasil. Apesar da rede de concessionárias relativamente pequena, o modelo brigava de igual para igual com a Zafira e quase sempre deixava o Scénic para trás. Em 2005 e 2006, foi o campeão absoluto entre os monovolumes.
No mundo, a produção ultrapassou 1,8 milhão de unidades (entre França, Espanha, Brasil, China e Egito). Mais do que um sucesso comercial, o modelo cumpriu múltiplas funções: foi resposta rápida a uma mudança de mercado, vitrine de design, laboratório de soluções internas e, no caso brasileiro, a pedra fundamental da operação industrial da Citroën.
Xsara Picasso - em 2011, a marca dos 100 mil carros produzidos em Porto Real
A ascensão dos SUVs compactos e médios, porém, passou a reduzir rapidamente o espaço das minivans. O consumidor, que antes valorizava modularidade e praticidade, passou a priorizar posição de dirigir elevada, suspensão mais alta e apelo visual mais aventureiro.
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