Nissan Ariya: testamos o SUV elétrico que o Brasil não teve
SUV elétrico global da Nissan impressiona pelo equilíbrio, mas ficou fora do mercado brasileiro
O Nissan Ariya é um daqueles carros que dizem muito sobre a indústria automotiva atual. Trata-se de um SUV elétrico global, vendido em mercados como Europa e Japão, mas que nunca chegou oficialmente ao Brasil. Ainda assim, tivemos a oportunidade de avaliá-lo em sua versão mais completa, revelando um produto maduro, bem resolvido e que levanta questionamentos inevitáveis sobre a estratégia da marca no país.
A Nissan trouxe algumas unidades ao Brasil exclusivamente para testes e avaliações internas. O modelo já foi cogitado em diferentes momentos para o nosso mercado, mas nunca se encaixou na estratégia da fabricante. Isso chama ainda mais atenção quando observamos a evolução recente do segmento de elétricos no Brasil, hoje repleto de SUVs de diferentes marcas e origens. Olhando por esse ângulo, será que a Nissan deixou passar uma oportunidade com um produto competitivo?
Projeto marcou nova fase da Nissan
Lançado globalmente em 2020, o Ariya surgiu em meio a uma fase de transformação da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi e representou um olhar claro para o futuro da eletrificação da marca. Desenvolvido sobre a plataforma CMF-EV, compartilhada com modelos como o Renault Mégane E-Tech, o SUV foi concebido para oferecer maior refinamento, desempenho e autonomia em relação ao Leaf.
Nos Estados Unidos, o modelo foi posicionado entre os principais SUVs elétricos do segmento, com preços variando entre cerca de US$ 40 mil e US$ 55 mil, dependendo da versão. Isso o colocou diretamente frente a rivais internacionais como Tesla Model Y e Hyundai Ioniq 5, reforçando sua relevância estratégica no cenário global, ainda que não fosse barato.
Design atemporal
Visualmente, o Ariya aposta em um desenho moderno e sofisticado, marcado por linhas horizontais e proporções equilibradas. A dianteira praticamente fechada integra a tradicional grade da Nissan a um painel liso e iluminado, com o logotipo da marca em destaque. Os faróis finos em LED e os recortes geométricos reforçam a identidade futurista do modelo.
Na lateral, a linha de cintura ascendente e as rodas de 19 polegadas com desenho aerodinâmico contribuem para a sensação de dinamismo. Já a traseira adota lanternas interligadas por uma faixa luminosa, solução que se tornou característica dos elétricos contemporâneos.
Mesmo após mais de cinco anos de seu lançamento, o design do Ariya permanece atual e evidencia a maturidade do projeto. Por onde passei, chamou muito a atenção nas ruas.
Interior minimalista e com atmosfera premium
O interior segue a mesma filosofia, com um ambiente minimalista e bem resolvido. O painel horizontal integra duas telas para instrumentos e multimídia, com boa definição e funcionamento até intuitivo, dado o tempo do projeto. Embora o grafismo não seja o mais moderno do segmento, o sistema oferece espelhamento de smartphones e operação fluida.
As saídas de ar embutidas contribuem para o visual limpo, enquanto os comandos do ar-condicionado são sensíveis ao toque e integrados ao painel. O console central elevado é um dos destaques do projeto, trazendo um mecanismo que permite ajustar sua posição longitudinal por meio de um botão lateral, solução que melhora a ergonomia e a versatilidade do espaço interno.
Outro diferencial é o amplo espaço vazado sob o console, além da presença de dois porta-luvas. Os painéis de porta contam com múltiplas camadas de acabamento, elevando a percepção de qualidade ao nível de modelos premium. Bancos confortáveis, ajustes elétricos para volante e assentos e o bom isolamento acústico reforçam essa proposta.
Com 2,77 metros de entre-eixos, o Ariya oferece bom espaço para os ocupantes traseiros, além de assoalho plano e saídas de ar com portas USB-C, atributos que contribuem para o conforto a bordo.
Desempenho e autonomia em equilíbrio
A versão avaliada foi a Platinum+ e-4ORCE, equipada com dois motores elétricos, um em cada eixo, que garantem tração integral e entregam 394 cv e mais de 60 kgfm de torque. O conjunto proporciona desempenho vigoroso, mas de um jeito que não compromete o conforto.
Em nossos testes, o SUV elétrico da Nissan acelerou de 0 a 100 km/h em 5,5 segundos, resultado condizente com a proposta do modelo. As retomadas também se destacaram, com respostas rápidas e progressivas.
Mais do que os números, a experiência ao volante revela um carro refinado e fácil de conduzir. A entrega de potência é linear, o rodar é macio e a suspensão bem calibrada filtra com eficiência as irregularidades do asfalto. Mesmo sem qualquer tipo de adaptação para o Brasil, o Ariya demonstrou excelente comportamento dinâmico, o que chamou muito a atenção.
Além do interior moderno e bem acabado, o isolamento acústico é outro destaque, reforçado pelo uso de vidros duplos, característica comum em veículos de padrão mais elevado.
A bateria de 87 kWh garantiu média de consumo de 4,8 km/kWh, com autonomia estimada em 418 km em uso misto e até 444 km em percurso urbano. Não são números surpreendentes, mas estão alinhados à proposta do modelo e confirmam a relativa eficiência do conjunto.
Faria sentido no Brasil?
Com esse pacote, o Ariya chegaria ao país como um SUV elétrico completo, ficando entre os modelos de marcas generalistas e premium. Não seria o mais barato nem o mais tecnológico do segmento, mas certamente figuraria entre os mais equilibrados, combinando autonomia, desempenho e refinamento.
O problema é que o mercado evoluiu rapidamente. Quando o modelo foi lançado, o Brasil ainda dava seus primeiros passos na eletrificação. Hoje, a concorrência é muito mais intensa, e a ausência da Nissan nesse segmento, mostra um espaço perdido por uma marca que por muito tempo foi referência em eletrificação.
Galeria: Teste - Nissan Ariya e-4ORCE
Bom produto, que perdeu o timing
Globalmente, o Ariya continua em linha em alguns mercados e até recebeu atualizações recentes no Japão. Ao mesmo tempo, saiu de linha nos Estados Unidos, refletindo uma reorientação estratégica da Nissan, que passa a concentrar esforços na nova geração do Leaf e em projetos de carros elétricos mais acessíveis.
Após o teste, a conclusão é de que o Ariya é um produto maduro, confortável e tecnicamente competitivo. Ele mostra que a Nissan tinha um SUV elétrico capaz de disputar espaço em mercados exigentes. O que faltou não foi produto, faltou timing e estratégia.
A marca demorou a tomar uma decisão e acabou perdendo o momento em que o modelo poderia ter se destacado no Brasil. Hoje, com o mercado mais competitivo e repleto de alternativas, o Ariya se torna um símbolo de uma oportunidade que ficou para trás. Ainda assim, ele serve como uma (boa) prévia do que a Nissan pode entregar no futuro, seja com a nova geração do Leaf ou com outros elétricos em desenvolvimento.
Nissan Ariya Platinum+ e-4orce
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