História: Chevrolet série C, as picapes mais vendidas no Brasil entre os anos 60 e 90
Modelo reunia desenho nacional, suspensão independente e motor confiável
Era o fim dos anos 50 e a implantação da indústria automobilística no país corria acelerada. Mas havia grupos estrangeiros que não acreditavam muito no potencial de nosso mercado de carros de passeio. Desde 1925, a General Motors montava veículos no Brasil usando peças importadas, logo se tornando a número 1 em vendas por aqui. Porém, quando chegou a hora de inaugurar uma fábrica de verdade, em 1958, a empresa decidiu produzir apenas caminhões e picapes.
Tinham cabine semelhante à dos velhos modelos americanos, mas com mudanças no estilo da dianteira. O interior dos modelos nacionais também era diferente. De início, só os caminhões foram batizados de Chevrolet Brasil – mas este nome acabou pegando também nas picapes (inicialmente denominadas Expresso de Aço nas propagandas).
Expresso de Aço, da linha Chevrolet Brasil - A antecessora
Sua maior qualidade estava no motor de seiscilindros em linha, já bem conhecido pelos nossos motoristas. Em 1959, esse propulsor – o Jobmaster 261 – passou a ser fundido no Brasil, na recém-inaugurada fábrica de São José dos Campos (SP).
Com 4.300 cm³ de cilindrada, rendia 142 cv brutos e tinha um mundo de torque em baixas rotações: eram 31,7 kgfm já a 2.000 rpm. Mas o seu grande encanto era ser superdimensionado e, portanto, muito robusto. Era fácil de manter e bem adaptado às altas temperaturas do país.
Chevrolet C-14 1964
Essas primeiras picapes nacionais tinham suspensão extremamente simples, com eixo rígido e feixes de molas na dianteira. Eram brutas – e isso era até desejável. Bastava cumprir suas pesadas missões sem enguiçar, que agradavam.
Além do padrão normal, a Chevrolet Brasil saía numa versão de cabine dupla, a Alvorada, ou com carroceria fechada para passageiros ou carga, a Amazona.
Luxo não havia. No máximo, uma bossa diferente, como os quatro faróis adotados em 1962. Como opcional, tinha “Tração Positiva”, um bloqueio de diferencial para sair dos atoleiros.
A Chevrolet C-10 1964 dos EUA - desenho mais careta que o da nossa C-14
Linha C-14, uma revolução
Eis que, em maio de 1964, a General Motors apresentou uma revolução: a linha Chevrolet C-14. A picape tinha linhas angulosas. Exclusivo para o Brasil, esse desenho parecia bem mais moderno e elegante que o da C-10 norte-americana da mesma época.
A espaçosa cabine podia levar motorista e mais dois caronas com conforto. Mas a principal mudança era a suspensão dianteira, que passava a ser independente, com balanças e molas helicoidais – uma garantia de conforto para o motorista.
Chevrolet C-14 1964
Foi a C-14 que deu origem à caminhoneta C-1416 (que mais tarde receberia o nome Veraneio). Mecanicamente, havia uma única diferença entre as duas: a picape tinha suspensão traseira tradicional, com eixo rígido e feixes de molas, enquanto os modelos para passageiros traziam inicialmente uma barra Panhard e molas helicoidais.
A capacidade de carga da picape era de 750 quilos. Como nas antigas Chevrolet Brasil, o motor da C-14 ainda era o silencioso “seis em linha” de 4,3 litros, atrelado a um câmbio de três marchas, com alavanca na coluna da direção.
Os entre-eixos disponíveis (1980)
Existiam, basicamente, duas versões: a C-14 e a C-15, com chassi e caçamba mais longos. Havia derivações com cabine dupla (C-1414), cabine simples e sem caçamba (C-1403), e até uma só com chassi, cofre do motor e quadro do para-brisa (C-1412).
Inicialmente, as propagandas tentavam vender a C-14 como um veículo que podia ser usado no dia a dia, quase como um carro de passeio. Daí o acabamento esmerado da pintura em duas cores, disponível na década de 60.
A linda C-10 cabine dupla
Guiar essas picapes novas era um prazer: a visão para a frente era muito boa, e a direção, leve e precisa em velocidades de cruzeiro. À noite, quatro faróis garantiam boa iluminação. E lá ia o motorista, tendo à frente um velocímetro em forma de semicírculo. Mas não demorou muito para que o painel fosse modificado: no lugar, entraram dois instrumentos redondos.
O consumo era alto para os padrões atuais: ficava em torno de 4,5 km/l na cidade e 5,5 km/l na estrada. Isto, contudo, não era grande problema antes de 1973, ano da primeira crise do petróleo.
De C-14 a C-10
Em 1974, as C-14 foram rebatizadas de C-10, denominação pela qual esta geração de picapes é a mais conhecida atualmente. Vieram ainda mudanças estéticas, como grade e capô de visual mais robusto. Lá na frente, restaram dois faróis.
Além de serem as picapes favoritas dos produtores rurais, essas Chevrolet eram muito usadas também no serviço público. Uma versão interessante era a militar, com para-brisa dobrável e pintura fosca. Originalmente, o modelo tinha apenas tração traseira, mas empresas como a Engesa trataram de desenvolver kits 4x4. Até uns raros exemplares trucados foram feitos artesanalmente.
Chevrolet Pick-up 1971
Com os seguidos aumentos no preço da gasolina, vieram novas opções de motor. Quando a crise apertou para valer, surgiram picapes com o motor de quatro cilindros do Opala. A linha também entrou na onda do álcool: eram as A-10, igualmente com motor do Opala, mas na versão 4.100 de seis cilindros.
A fórmula da General Motors deu muito certo e suas picapes lideraram o mercado brasileiro com ampla margem: no acumulado do ano de 1970 foram 12.643 Chevrolet C-14 contra 1.848 Ford F-100. Em 1980, a vantagem continuava: cerca de 27 mil Chevrolet contra 7 mil Ford (a marca do oval azul dispunha ainda da velha F-75, herdada da Willys – e, mesmo assim, não conseguia superar as vendas da GM).
No diesel
A essa altura, todo mundo que tinha veículos de carga já estava migrando para o diesel. As picapes Chevrolet ganharam então um lerdíssimo e barulhento motor Perkins de quatro cilindros, originalmente agrícola. Tinha cilindrada de 3,9 litros e rendia míseros 86 cv. Mas foi esta versão, batizada de D-10, que passou a ser a mais vendida da linha.
Chevrolet D-10 1983
Por causa da legislação brasileira, as versões a diesel tiveram sua capacidade de carga aumentada para uma tonelada. Outras alterações foram a adoção do câmbio de quatro marchas e de freios a disco nas rodas dianteiras.
Mesmo com todas as mudanças, as Chevrolet já não conseguiam mais disfarçar a idade. Vale lembrar que sua grande rival, a Ford F-100/F-1000, tinha um estilo seis anos mais moderno.
Assim, em 1985, as picapes da GM foram totalmente remodeladas. Seus ângulos ficaram mais retos, com as linhas retangulares então em voga. Um detalhe visual eram os faróis emprestados do Opala.
Como as picapes estavam se tornando cada vez mais urbanas, muitas sendo transformadas em “carros de passeio” por encarroçadoras especializadas, o interior ficou mais caprichado, com painel bem completo.
Chevrolet D-20 Cabine Dupla _1994–97
Chegaram ainda novos motores a diesel, agora com turbocompressor, e versões de cabine dupla com quatro portas. Essa geração de picapes Chevrolet ficou em linha até 1997, quando deu lugar à Silverado importada da Argentina, que teve vida curta por aqui.
Hoje, a Chevrolet se garante com a S10, de porte médio – mas vale dizer que as picapes “médias” cresceram tanto nos últimos anos, que a atual S10 tem entre-eixos maior que o das antigas C-10 e D-20 básicas (3,09 m contra 2,92 m). Muitas das velhas picapes da linha C, fabricadas entre os anos 60 e 80, continuam na ativa e longe da aposentadoria, trabalhando duro pelo Brasil.
RECOMENDADO PARA VOCÊ
Chevrolet Sonic: um nome do passado que volta à linha General Motors
Chefão da BMW deixa vazar moto com o maior motor da história da Motorrad
Audi recria carro recordista que chegou a 320 km/h...em 1935!
Flagra: novo Honda City 2028 aparece sem camuflagem e tem cara de Prelude
Salão de Pequim 2026: estrelas que já brilhavam antes da eletrificação
Novo Jeep Avenger 2027 nacional tem interior relevado e é mais simples que europeu; veja fotos
Audi RS2 Avant: a perua que acelerava mais que o McLaren F1