Chevrolet Opala por R$ 500 mil? Pois é… E foram vendidos dois!
Restomods criados pela GM foram arrematados no último fim de semana
Depois do Omega de R$ 437 mil, no ano passado, agora foram vendidos dois Opala por R$ 500 mil cada. E ainda uma S10 de rali por R$ 450 mil — isso sem contar a comissão de 5% do leiloeiro. Mais uma vez, os carros restaurados por iniciativa da General Motors, no programa Vintage, atingem altas cotações em um leilão de automóveis antigos no museu Carde, em Campos do Jordão (SP).
Desta vez, foi na Venda de Outono, um remate que começou de forma virtual em 11 de abril e terminou em um evento presencial no último sábado, 2 de maio. Entre os 45 lotes iniciais, havia estrelas absolutas como um raríssimo Jaguar XJ220. O supercarro britânico de 1994 nem chegou ao leilão final: foi comprado antecipadamente, por meio da modalidade “Buy It Now”, pelo preço fixo de R$ 6,9 milhões.
Os três carros da GM entraram no catálogo já com o leilão virtual iniciado. Mesmo assim, foram bem disputados: o Opala amarelo teve 50 lances até chegar aos R$ 500 mil; o Opala verde foi arrematado pelo mesmo valor depois de 38 lances; enquanto a picape campeã do Rally dos Sertões de 2005 recebeu 30 lances até alcançar os R$ 450 mil finais.
Como são os carros
O projeto Vintage foi lançado em 2025 como forma de comemorar os 100 anos de fundação da General Motors do Brasil. A ideia é restaurar dez Chevrolet nacionais antigos de forma original ou em estilo “restomod”, seguindo projetos de engenheiros da companhia.
A equipe da GM acompanha semanalmente o andamento dos trabalhos, realizados em oficinas especializadas. Ao fim, os carros passam por um “pente fino” da engenharia da fábrica para verificar se tudo está dentro do padrão exigido de um zero-quilômetro. Na fase de validação, são testados no Campo de Provas de Indaiatuba e recebem os ajustes finais, sempre necessários. Alguns projetos que exigem maior rigor quanto à originalidade têm a montagem feita dentro da fábrica-piloto da GM.
De todos os carros do projeto, apenas dois tiveram fórmula repetida: o Opala 1976 verde e o Opala 1979 amarelo, ambos caracterizados como SS — as cores nacionais são uma homenagem ao país onde a General Motors instalou sua filial em 1925. Ambos os trabalhos foram executados na mesma oficina terceirizada — a BTS Garage, leia-se Batistinha — seguindo uma receita elaborada por engenheiros da fábrica.
Apesar de terem sido comprados pela GM em bom estado de conservação, ambos tiveram a pintura decapada até a lata e foram refeitos artesanalmente nos mínimos detalhes. A funilaria levou aproximadamente três meses na oficina de Batistinha, onde também foram incorporadas as atualizações mecânicas. O objetivo era obter um par de Opalas extremamente íntegros, respeitando o design original, mas com modernizações que permitam até o uso diário no trânsito atual, se for o caso.
Todo o sistema de arrefecimento foi atualizado. O ventilador mecânico deu lugar a um elétrico — só aí já houve um ganho em torno de 5 cv. O motor seis-em-linha original de 4,1 litros foi inteiramente desmontado e refeito, com todos os componentes internos substituídos. Eixo, pistões, bielas… é tudo novo — mas original, sem preparação.
Em vez de carburador, contudo, há a injeção eletrônica FuelTech 450 (um desavisado pode até pensar que há um Weber ali embaixo do filtro de ar). O sistema de exaustão é dimensionado, um 6 em 2 de aço inox.
O tanque é maior e a bateria foi deslocada para o porta-malas, deixando o compartimento do motor com aparência mais “clean”. Toda a instalação, aliás, chama a atenção pela limpeza — e pelos componentes pintados de preto fosco, contrastando com as cores vivas e brilhantes das carrocerias.
A transmissão original deu lugar a uma caixa Tremec de cinco marchas, com alavanca Hurst para uma sensação de troca mais direta.
Freios e suspensões foram totalmente revisados, recebendo componentes novos. Os Opala ganharam discos na traseira e suspensão levemente rebaixada, com amortecedores Bilstein de maior carga para dar equilíbrio ao carro. As rodas mantêm o desenho original das usadas nos SS dos anos 70, mas são novas, com medidas diferentes. Calçam pneus RoadX RXmotion 195/60 R15 na dianteira e 225/60 R15 na traseira.
A decoração interna é bem sóbria, sem exageros. Tudo preto, com direito a tapetes de borracha e cheirinho de carro novo. Os bancos são modernos, com apoio lateral, forrados em couro legítimo. Um detalhe interessante são os instrumentos com mostradores aparentemente originais, mas com funcionamento eletrônico e hodômetros digitais. Todo o chicote elétrico foi refeito. Os Opala ganharam ainda ar-condicionado — mas os vidros continuam a subir e descer na manivela.
Tudo foi restaurado ou substituído. Nada do que estava gasto foi reaproveitado. Os mais puristas podem torcer o nariz ao ver dois Opala seis-cilindros “normais” caracterizados como SS, mas esses carros vão muito além de restaurações originais. São uma caprichada releitura feita por engenheiros da GM de hoje, com tudo o que a tecnologia do século XXI pode melhorar em um projeto da década de 70 — e com confiabilidade de zero-quilômetro.
Picape dos Sertões
A S10 2004 é uma das unidades que integraram a equipe oficial da GM no Rally dos Sertões. Localizar o exemplar original foi um desafio à parte. Após meses de pesquisa, a picape foi encontrada em Minas Gerais, ainda na mesma configuração com que terminou sua última prova.
Na restauração, o motor 2.8 turbodiesel MWM foi refeito pelo mesmo time da fornecedora original que preparou o propulsor para a competição, assim como a transmissão Eaton de cinco marchas. Na configuração de prova, a potência chegava a superar 300 cv. Essa preparação especial, voltada exclusivamente para o rali, nunca foi oferecida comercialmente, o que reforça o caráter único da unidade.
Um dos destaques técnicos da restauração foi a adequação da curva de torque do motor para permitir o uso no trânsito normal, garantindo força em baixos giros e respostas mais suaves. São 50 kgfm já a 2.000 rpm.
Foram preservados a gaiola de proteção, os reforços estruturais, os bancos concha e os cintos de cinco pontos homologados pela FIA. Algumas marcas de uso foram mantidas como registro histórico de sua participação nas provas, enquanto a pintura foi refeita para celebrar os 100 anos da GM no Brasil, com a adição de adesivos comemorativos e das marcas OnStar e AC Delco.
O que ainda falta mostrar
Na lista dos dez carros do programa Vintage ainda faltam o Kadett GSi 1992 original, uma D20 cabine dupla também original (das últimas fornadas, com motor Maxion S4 T Plus), uma C10 cabine simples de 1975 com motor V8 6.2 de Camaro e câmbio automático de seis marchas, além de uma picape Chevrolet Brasil 1959 que está ganhando motor V8 350, transmissão automática e modificações na suspensão e nos freios.
A cereja do bolo dos 100 anos será um Chevettinho “Tubarão” azul com aparência original, mas equipado com um motor que, nos anos 80, equipava carros de rali no Brasil — conhecido como “Misto Quente”. Preparado pela própria engenharia da GMB na época, combinava bloco do Chevette 1.6, cabeçote do Monza, comando mais agressivo e carburador de corpo duplo, rendendo aproximadamente 100 cv. Todos os carros serão vendidos em leilões ao longo deste ano.
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