Chevrolet Sonic: um nome do passado que volta à linha General Motors
Modelo original tinha origem sul-coreana e fracassou no Brasil entre 2012 e 2014
Chevrolet Sonic… O lançamento da semana da General Motors do Brasil retoma um nome de um passado recente. Remete ao dinâmico ouriço azul dos games e desenhos animados, capaz de atingir altas velocidades. Também tem pronúncia fácil no Brasil e nos demais países da América Latina para onde o modelo será exportado. E o fato de a GM já deter os direitos sobre o nome também pesou na decisão, reduzindo custos com registros.
Dito isso, vale lembrar do outro Sonic: um carro que ficou pouco tempo à venda no Brasil, sem nunca alcançar grande sucesso. Tanto que muita gente já se esqueceu dele.
De Daewoo Kalos a Chevrolet Aveo
A história do modelo começa no fim de 2002, com a estreia do compacto Daewoo Kalos (código interno T200) na Coreia do Sul. Substituto do Lanos (T100), foi o primeiro carro lançado após a General Motors comprar a falida Daewoo Motor.
A gigante norte-americana percebeu o potencial da engenharia sul-coreana para desenvolver carros compactos de baixo custo e alcance mundial. Surgia ali a GM Daewoo (posteriormente rebatizada como GM Korea), que se transformaria em um dos mais importantes centros globais de desenvolvimento da companhia.
Daewoo Kalos (T200), o primeiro Aveo
Sob a batuta da GM, o Daewoo Kalos ganhou o mundo usando nomes diferentes dependendo do país de destino. Sua principal identidade era Chevrolet Aveo — mas também podia ser Holden Barina, Daewoo Gentra, Chevrolet Lova, Pontiac G3, Pontiac Wave, Ravon Nexia, ZAZ Vida e Suzuki Swift+.
Na América Latina, o Chevrolet Aveo de primeira geração fez grande sucesso, sendo vendido no Peru, na Venezuela, na Colômbia, no Chile, no Equador e na Argentina. O modelo era produzido no México mas, apesar do acordo comercial com o Brasil, não chegou ao nosso mercado. Por aqui, afinal, já tínhamos o Corsa G2 e o Agile, ambos de fabricação nacional.
Chevrolet Aveo RS concept - apresentado em Detroit 2010
De Chevrolet Aveo a Chevrolet Sonic
A segunda geração do Chevrolet Aveo (T300) veio em tempos de crise financeira para a GM, quando a empresa tentava racionalizar plataformas e unificar projetos em escala internacional. O modelo deixava de ser um acanhado Daewoo para crescer em tamanho, refinamento estrutural e ambição comercial.
Seu projeto ficou sob responsabilidade da GM Korea, embora tenha recebido forte participação internacional. A engenharia da Opel liderou o desenvolvimento da plataforma, recebendo contribuições importantes das equipes da australiana Holden e da Chevrolet nos Estados Unidos.
Lançado mundialmente em 2010 e comercializado a partir de 2011, o novo Chevrolet Aveo foi o primeiro modelo a utilizar a plataforma global Gamma II para compactos da General Motors. Mais tarde, a mesma arquitetura daria origem a modelos como Onix, Spin e Cobalt no Brasil.
O desenho era seu aspecto mais marcante. Obra da equipe de Kim Tae Wan, vice-presidente e diretor de design da GM Korea, em parceria com o australiano Ondrej Koromház, da Holden, o carro era descrito por seus criadores como “uma motocicleta de quatro lugares”. Sua pré-estreia aconteceu em janeiro de 2010, no Salão de Detroit, com o conceito Aveo RS — já com quase todos os traços do modelo definitivo. A versão final foi apresentada no Salão de Paris do mesmo ano.
Os faróis duplos sem cobertura transparente, inspirados em motos naked, eram sua assinatura visual. A dianteira alta, os para-lamas musculosos e a linha de cintura elevada davam ao hatch uma aparência agressiva rara entre compactos do segmento B naquele começo de década. A grade enorme lembrava a do Mitsubishi Lancer. As lanternas traseiras do hatch acompanhavam o desenho “saltado”.
O painel misturava conta-giros analógico com velocímetro digital em LCD, mais uma vez inspirado em motos esportivas. A proposta era transmitir arrojo e modernidade.
Tecnicamente, o carro também se distanciava da média dos compactos da Chevrolet na época. A suspensão tinha acerto mais refinado, o isolamento acústico era superior ao de muitos rivais e a sensação de solidez aproximava o modelo de categorias maiores. Nos EUA, o acerto de suspensão foi feito por John Buttermore, engenheiro que afinava os Corvette.
O Sonic hatch media 4,04 m de comprimento, enquanto no sedã eram 4,40 m. Nos dois, o entre-eixos era o mesmo: 2,53 m.
A linha de motores a gasolina ia do 1,2 ao 1,8 litro, sempre de quatro cilindros. Nos Estados Unidos havia até um Ecotec 1.4 16v turbo, de 140 cv.
Na Europa, o modelo manteve o nome Chevrolet Aveo da geração anterior. Na Austrália e na Nova Zelândia o carro continuou a ser chamado de Holden Barina. Em quase todos os países das Américas, contudo, o modelo T300 foi batizado com um novo nome — nascia o Chevrolet Sonic.
Chevorlet Sonic - o motor 1.6 16v (120 cv)
O T300 foi produzido em vários países, entre eles Coreia do Sul, Estados Unidos, México, Rússia, Tailândia e China. Em alguns mercados asiáticos, como Filipinas e Tailândia, houve montagem local.
Nos Estados Unidos, o modelo ganhou importância simbólica para a GM. Fabricado em Orion Township, no estado de Michigan, foi o primeiro compacto global produzido pela Chevrolet em território americano após a reestruturação da empresa. A marca explorava esse aspecto em suas campanhas publicitárias, apresentando o Sonic como um raro subcompacto “made in America”.
O Sonic chega ao Brasil
Em nosso mercado, a história do T300 foi tão curta quanto curiosa. O Sonic desembarcou oficialmente em junho de 2012 — praticamente ao mesmo tempo em que o Corsa G2 saía de linha em São José dos Campos (SP) para abrir espaço para a linha do Onix.
Inicialmente, o Sonic era importado da Coreia do Sul, em versões hatch e sedã. Poucos meses depois, a importação passou para o México, aproveitando os acordos comerciais da época (mas sem redução nos preços…).
Chevrolet Sonic Sedan
A versão básica LT, com câmbio manual, já trazia itens como ar-condicionado, direção hidráulica, rodas de liga leve de 15”, trio elétrico, airbag duplo e ABS. Já a topo de linha LTZ podia vir com câmbio automático de seis marchas (opcional), trazendo ainda sensor de estacionamento traseiro, faróis de neblina, comandos de som no volante e rodas de 16”. Era um belo pacote.
As unidades exportadas para o Brasil eram equipadas com o motor Ecotec 1.6 16v flex de até 120 cv, dotado de variação no comando e no duto de admissão — um conjunto moderno para os padrões nacionais da época.
Chevrolet Sonic - interior
A proposta era clara: transformar o modelo no compacto premium da Chevrolet, posicionado acima do Agile e do futuro Onix. Seus alvos eram o Ford New Fiesta e os Honda Fit e City.
Os preços na época do lançamento mostravam isso. Na versão hatch, o Sonic custava entre R$ 46.200 e R$ 53.600 (bem na faixa do New Fiesta e do Fit 1.4). O Sonic sedã saía por valores de R$ 49.100 a R$ 56.100 (um pouco mais caro que o New Fiesta Sedan e um pouco mais barato que o City).
Chevrolet Sonic Sedan
Na prática, o modelo acabou espremido em uma faixa complicada do mercado. Custava mais caro do que os compactos tradicionais produzidos no Brasil, mas também não tinha o prestígio necessário para disputar espaço com médios de entrada.
Seus destaques eram a suspensão equilibrada, que oferecia grande estabilidade em estrada, com sensação de carro “europeu”. O motor Ecotec tinha respostas rápidas e um ronco encorpado, embora o consumo nunca tenha sido um de seus pontos fortes.
Chevrolet Sonic Effect
Mas havia obstáculos difíceis de contornar — a começar pela concorrência interna. Em outubro de 2012, apenas quatro meses depois da chegada do Sonic, foi lançado o Chevrolet Onix nacional. Sua versão 1.4 custava, em média, 23% menos que o modelo sul-coreano.
Vendendo como pão quente, o Onix rapidamente se transformou na prioridade absoluta da GM no Brasil. O fenômeno de canibalização foi imediato. Enquanto o Onix acumulava dezenas de milhares de unidades vendidas, o Sonic permanecia em volumes modestos.
Chevrolet Sonic Effect
As vendas jamais corresponderam às expectativas. Em 2014, o Sonic hatch emplacava pouco mais de 500 unidades mensais, enquanto o sedã girava em torno de 340 carros por mês — números insuficientes para justificar sua permanência no mercado. A situação ainda foi agravada pela disputa dentro da GM pelas cotas de importação vindas do México, compartilhadas com modelos mais lucrativos como Tracker e Captiva.
O fim veio discretamente. Em setembro de 2014, a Chevrolet encerrou a importação do Sonic para o Brasil. Sem campanhas fortes de marketing e ofuscado pelo sucesso absoluto do Onix, o compacto global acabou desaparecendo sem alarde.
Nos Estados Unidos, porém, o Sonic sobreviveu até 2020. Seu encerramento marcou simbolicamente o fim de uma era: foi o último compacto da Chevrolet produzido naquele país. O avanço dos SUVs e crossovers praticamente eliminou os pequenos hatchbacks do mercado norte-americano.
Curiosamente, o nome Aveo continua a fazer enorme sucesso no México, mas aplicado a um carro completamente diferente, produzido na China pela SAIC-GM-Wuling. Agora é ver se o novo Sonic brasileiro dará o troco no seu irmão Onix.
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