As tecnologias da Fórmula 1 que você usa sem nem perceber
A F1 não constrói apenas carros mais rápidos; ela cria soluções para os problemas do mundo.
Toto Wolff certa vez chamou os carros de Fórmula 1 da Mercedes de o “laboratório mais rápido do mundo”. Embora seja um clichê que faça a gente revirar os olhos mais rápido do que um pneu Pirelli, é difícil contestar.
Quando se gastam centenas de milhões de dólares para cortar décimos do tempo de volta, é inevitável que surja algo capaz de mudar o mundo. E não estamos falando só de um motor híbrido para o seu carro de uso diário; estamos falando de tecnologia que salva vidas em hospitais. A seguir, algumas das melhores tecnologias que “desceram” do grid para o mundo real.
Paddle shifter do Lamborghini Huracan Evo RWD
Tecnologia nos carros de rua
Embora exista muito mais nessa história do que apenas tecnologia sobre rodas, vamos começar pelo que é mais conhecido.
- Trocas de marchas por borboletas: nos anos que antecederam 1989, pilotos de F1 eram obrigados a lidar com câmbio manual e embreagem em cockpits apertados. Mas, com a chegada dos anos 1990, a Ferrari 640 de John Barnard passou a usar um câmbio semiautomático com borboletas atrás do volante. No início, não era dos mais confiáveis. Ainda assim, o tempo economizado nas trocas foi bem-vindo para pilotos como Nigel Mansell e Gerhard Berger. A tecnologia se espalhou rapidamente pelo grid. Em 1997, esse tipo de câmbio já podia ser encontrado no F355 F1 de rua.
- O híbrido moderno: a temporada de F1 de 2009 marcou a introdução do KERS (Sistema de Recuperação de Energia Cinética). Ele chegou como um sistema pesado de “push-to-pass” que usava energia elétrica para elevar a potência das unidades de força, que já eram fortes. Hoje, esses sistemas foram amplamente otimizados e aparecem em alguns dos carros mais rápidos do planeta, incluindo o Mercedes-AMG One e o Ferrari F80.
Tecnologia da geladeira Williams F1
Tecnologia fora das ruas
Aqui é onde as coisas ficam curiosas. A tecnologia criada para — e que ajudou a criar — alguns dos carros de corrida mais rápidos do mundo pode ser encontrada praticamente em todo lugar. Na verdade, eu arriscaria dizer que você esbarra em algo inspirado na F1 quase toda semana.
- A geladeira com aerofólio: a Williams Advanced Engineering desenvolveu um aerofólio para geladeiras abertas usadas em supermercados. Esses equipamentos deixam o ar frio “vazar” para os corredores, gerando um custo de milhões por ano para as empresas. Usando dinâmica dos fluidos computacional (CFD), o mesmo software empregado no desenvolvimento dos carros da Williams, eles criaram algo que pode ser instalado com facilidade na geladeira para direcionar o ar de volta para dentro, reduzindo o desperdício.
- Telemetria nos hospitais: a McLaren Applied Technologies, como todas as equipes, analisa constantemente seus pit stops, com milhões de pontos de dados processados por machine learning e, mais recentemente, inteligência artificial. Mas, ao aprofundar a análise dessas informações em 2012, a organização percebeu que os processos de um pit stop poderiam ser adaptados a hospitais. Em parceria com o Birmingham Children’s Hospital no projeto RAPID, eles instalaram telemetria para monitorar bebês. Com essa tecnologia, os sinais vitais de um paciente podem ser medidos de forma contínua e remota.
- Atualizações para os ônibus de Londres: mais uma vez, voltamos à sede da Williams em Grove, onde a equipe chegou a desenvolver para seus carros um sistema de KERS baseado em volante de inércia. Em teoria, o sistema faria um rotor girar a altas velocidades para armazenar energia cinética. Infelizmente, não funcionou no carro, mas a tecnologia poderia ser aplicada em ônibus de Londres com sistema stop-start. Ian Foley, diretor-geral da Williams Hybrid Power, afirmou que a economia de combustível poderia chegar a 30% quando a tecnologia foi apresentada em 2012.
Há algo de irônico em como um dos esportes mais glamourosos do mundo é responsável por viabilizar algumas das tecnologias mais interessantes — e discretas — do dia a dia. Talvez não devêssemos revirar os olhos. Wolff tem razão.
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