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Grandes grades: o que está acontecendo com a frente dos carros

Mais do que necessidade para a refrigeração, item virou parte essencial da identidade de cada marca

BMW i3 (2026)
Foto de: BMW

Já faz algum tempo que as grades ocupam boa parte do design frontal dos carros novos - às vezes a dianteira inteira. Mas você sabe por que isso ocorre? Até modelos elétricos, como o novo BMW i3, contam com ela.

E, sendo elétrico, não é necessário que haja uma grade "de verdade" ali; mesmo assim, o tradicional duplo rim da alemã continua lá, bem visível no centro da dianteira. Só isso já basta para entender um dos dilemas mais interessantes do design atual.

Nos carros a bateria, a entrada de ar tradicional pode desaparecer ou migrar para a parte inferior do para-choque. A grade, porém, sobrevive como elemento gráfico, identidade de marca e como o "rosto" reconhecível do veículo.

 

Quando a dianteira realmente não precisava

No passado, a ausência de grade não era um exercício de estilo, mas uma consequência técnica. Carros populares com motor traseiro, como o Fusca, o Fiat 600 e o Simca 1000, ostentavam frentes limpas ou compensavam a estética com uma falsa grade para tranquilizar seus consumidores.

Com o tempo, o motor voltou para a frente e trouxe a necessidade de ar para o radiador. A grade passou a ser obrigatória; primeiro separada do para-choque, depois integrada ao conjunto frontal - como mostrou o primeiro Fiat Ritmo. No modelo italiano, a peça se funde ao para-choque em uma passagem-chave rumo ao carro moderno, onde entradas de ar e carroceria se tornam uma coisa só.

Volkswagen Maggiolino (1972)

Sempre vendido com motor traseiro, o VW Fusca podia dispensar uma grade de verdade. Assim, a frente permanecia quase fechada, limpa e imediatamente reconhecível

Foto - Fiat Ritmo

Na Fiat Ritmo de primeira série, a grade se funde no para-choque e na frente: uma passagem-chave rumo ao carro moderno, em que entradas de ar e carroceria começam a se tornar uma coisa só

A grade também é um símbolo de marca

A grande questão é que a grade nunca serviu apenas para o arrefecimento. Ela é a forma mais rápida de reconhecer uma marca, quase como um cartão de entrada. Mercedes-Benz, Volvo e Lancia trabalharam por anos a ideia do "falso radiador", enquanto a Alfa Romeo construiu sua história sobre variações do clássico trilobo.

A Renault é um estudo de caso à parte: basta olhar as gerações do Clio para ver como a grade pode alargar, estreitar ou quase sumir sem perder o vínculo com a marca. No Alfa Romeo Junior, a fabricante mantém o escudo central e reinterpreta o desenho com o Biscione (a serpente) entalhado no triângulo. As variações entre as versões elétrica e a combustão são pequenas, justamente para preservar o DNA visual.

Alfa Romeo Junior Edizione Bianco

Na Junior, a Alfa Romeo mantém o escudo central, reinterpretando o clássico trilobo com uma frente mais elaborada, mudando pouco nas variantes elétricas ou combustão 

Fotos de: Alfa Romeo
Tesla Cybertruck visto ao vivo

Exemplo mais marcante de não-grade é a frente plana do Tesla Cybertruck, na qual a essencialidade das formas se combina com a tecnologia elétrica

Com os elétricos, a entrada de ar desce para baixo

Com o carro elétrico, a necessidade técnica muda. O resfriamento ainda existe, mas muitas vezes basta uma gestão de fluxo de ar mais discreta e geralmente rebaixada para a parte inferior do para-choque; por isso a Tesla popularizou a dianteira quase lisa, até chegar ao caso extremo da Tesla Cybertruck, que leva ao limite a ideia de um “nariz” plano e quase abstrato.

O Citroën Ami também mostra a mesma lógica mesmo em um conjunto muito menor. Nele, a dianteira nem tenta imitar uma grade tradicional, e a simetria com a traseira vira parte do projeto para reduzir custos e componentes. É um dos exemplos mais claros em que a “cara” do carro nasce sem a antiga obrigação do radiador na frente.

Hoje, o dilema é exatamente este

É por isso que muitos elétricos se dividem em duas famílias. De um lado, os que aceitam uma frente fechada, como Tesla ou Ami; do outro, os que mantêm um “sinal de grade” para não perder identidade, como a BMW, que na i3 derivada do conceito Neue Klasse transforma o duplo rim numa superfície integrada a faróis e sensores.

O paradoxo final é que agora acontece também o contrário: alguns modelos a combustão parecem elétricos, ou então compartilham a dianteira com versões a bateria e híbridas. A nova Lancia Ypsilon, por exemplo, usa três segmentos luminosos que evocam a grade histórica, enquanto a versão híbrida também se diferencia por entradas de ar específicas: sinal de que hoje a grade já não é só função, mas linguagem.

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